Capítulo 1
“Que linda!”
Sylvia Resende se contemplou no espelho do exclusivo ateliê de noivas. O reflexo devolveu a imagem de uma noiva etérea, quase irreal. O vestido, com sua saia flutuante e o corpete ajustado à sua figura esbelta, transformava–a numa visão digna de um conto de fadas. Seu rosto, mesmo sem uma gota de maquiagem, irradiava uma beleza natural que tornaval qualquer artifício desnecessário.
Até o gerente da loja, que a ajudava com os ajustes no vestido, não pôde deixar de elogiar.
“É uma verdadeira obra de arte! Por que o Sr. Borges não está aqui para apreciar? O olhar de um homem é diferente do de uma mulher.”
Sylvia sorriu educadamente: “Ele está ocupado com o trabalho.”
Assim que terminou de falar, seu celular vibrou. Olhou para o número na tela e atendeu imediatamente: “Íris.”
“Sylvia, eu avistei a Kesia Menezes e o Ricardo Borges juntos!”
Aquelas palavras fizeram Sylvia congelar por um instante.
O sorriso satisfeito que adornava seu rosto começou a desaparecer lentamente com a notícia repentina trazida por sua amiga: Íris Pacheco.
Seu olhar esfriou.
Ricardo era seu noivo.
Faltava apenas uma semana para o casamento.
E Kesia… Apenas ouvir o nome dela causava um desdém involuntário por parte de Sylvia.
Ela olhou rapidamente para o gerente da loja, que estava segurando o vestido, e ele assentiu, compreensivo.
Com um gesto, todos se apressaram em segui–la para fora.
Com as pessoas já tendo partido, Sylvia observou suas unhas impecavelmente feitas e perguntou casualmente: “Onde foi que você os viu?”
Íris respondeu com urgência: “No hospital, na ala de ginecologia e obstetrícia.”
Sylvia arqueou uma sobrancelha, sorrindo: “Que lugar peculiar.”
Um homem e uma mulher aparecendo juntos num local como a ala de ginecologia e obstetrícia geralmente significava o quê?
Íris se adiantou, já enfurecida: “Essa Kesia é uma dissimulada, e o Ricardo não passa de um cafajeste. Você não deveria se casar com ele!”
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Capitulo 1
Antes mesmo de Sylvia se enfurecer, Íris já estava dominada pela raiva.
Sylvia pegou um copo d’água que estava na mesa à sua frente e tomou um gole: “Toda vez que ela se finge de dissimulada, quem sofre as consequências sou eu. Por que você está tão irritada?”
Dois anos haviam se passado desde que Kesia havia deixado sua vida. Naquele tempo, Sylvia pedira a Deus para não ter que lidar mais com ela.
E agora, ela estava de volta para se envolver com Ricardo novamente.
Será que Sylvia tinha sido muito gentil nos últimos dois anos? Ou havia sido excessivamente paciente nos últimos dois anos?
Iris estava visivelmente enfurecida. “Ela escolheu esse momento, justo quando você e o Ricardo estão prestes a se casar. Não há dúvidas de que ela não tem boas intenções.”
O olhar de Sylvia se endureceu: “Vou desligar agora.”
Iris perguntou: “O que você vai fazer?”
Sylvia apenas respondeu, fria: “Se alguém está fazendo um teatro, por que não comprar um ingresso para assistir?”
Dito isso, ela desligou o telefone.
Diante do espelho, ainda vestida com o branco imaculado de seu vestido de noiva, ela levou a mão até o corpete.
Ela encerrou a chamada e virou–se para o espelho. Seus dedos roçaram o decote de seu vestido e, com um movimento deliberado, rasgou–o de cima a baixo. O tecido caiu a seus pés como uma cascata branca, enquanto os funcionários observavam de longe, segurando a respiração diante da cena impressionante. Diante da expressão severa de Sylvia, ninguém se atreveu a se aproximar ou pronunciar uma palavra.
Assim que ela trocou de roupa, seu telefone vibrou novamente.
Era Ricardo!
No momento em que atendeu, a voz séria do homem soou do outro lado: “Venha para a empresa assim que terminar de provar o vestido.”
Dois anos haviam se passado.
Durante esses anos, Ricardo sempre havia sido bom para ela, sempre gentil e atencioso.
E agora essa mudança repentina…
Seria por causa do retorno de Kesia?
Sylvia sentiu um leve sarcasmo se formar em seus olhos. Não se deu ao trabalho de responder, e apenas desligou o telefone.
Meia hora depois.
Quando Sylvia entrou no escritório de Ricardo, ele estava de pé diante da janela panorâmica,
falando ao telefone.
O sol banhava sua figura, tornando sua aparência ainda mais distinta e suave. O perfil perfeito e atraente dele parecia capturar a atenção de todos ao redor.
Ele havia sido abençoado com uma beleza rara, algo que se destacava por toda a Cidade
Orozco.
Ao ver Sylvia, ele rapidamente concluiu sua conversa ao telefone. “Almoce sozinha, tenho que desligar.”
Com o celular ainda na mão, Ricardo caminhou até o sofá e se sentou.
A suavidade de antes desapareceu, substituída por uma frieza visível.
Ele olhou para Sylvia: “Venha aqui.”
Ela o encarou, percebendo a mudança em sua expressão, mas em vez de se sentar ao lado dele como de costume, escolheu se posicionar em frente a ele.
Ricardo notou a distância em sua expressão, e o frio em seus olhos se intensificou.
Com um ‘clique‘, o som do isqueiro ecoou, seguido de uma nuvem de cheiro de gasolina que
invadiu o ambiente.
Sylvia não gostava desse odor, balançando a mão para tentar dissipá–lo.
Ricardo, alheio ao seu desconforto, acendeu um cigarro, dando uma tragada lenta: “A Kesia
voltou.”
Ao dizer isso, uma sombra de culpa passou rapidamente por seus olhos.
Mas isso não impediu o que ele disse a seguir: “Vamos ter que adiar o nosso casamento.”
Depois de receber a ligação de Íris, Sylvia já esperava por esse resultado.
“O que você quer dizer com isso?”
Kesia voltou, e agora o casamento seria adiado?
“Ela está gravemente doente.”
Enquanto falava, Ricardo estendeu um documento para ela, continuando: “Aqui está a carta de aceitação da Universidade de Edimburgo. Você vai estudar primeiro.”
O tom dele era quase condescendente, como se estivesse lhe oferecendo uma grande “generosidade“.
Sylvia olhou para o envelope com desdém, sem fazer o movimento de pegá–lo. Um sorriso irônico surgiu em seus lábios: “Quer me mandar para o Reino Unido? Para dar espaço para ela?”
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Capitulo 1
A expressão de Ricardo se tornou sombria: “Não é essa a universidade que você sempre quis? Agora…”
“Ricardo!”
O grito de Sylvia cortou o ar como um chicote. Ela inclinou–se para a frente, arrebatando o envelope de suas mãos e, com uma lentidão deliberada, o fez em pedaços. Os fragmentos flutuaram pelo ar como flocos de neve antes de se espalharem por todo o escritório. Ela manteve o último pedaço para o final, atirando–o diretamente no rosto de Ricardo.
A última centelha de humanidade nos olhos dele se extinguiu.
Sylvia se levantou, alisando as rugas invisíveis de sua saia.
Sylvia também não demonstrou nenhuma simpatia por ele e declarou diretamente: “Não precisa adiar o casamento. Pode cancelar.”
Adiar? Cancelar resolve tudo! Simples!
ΔΙΑ